Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

sábado, 3 de junho de 2017

Alguns apontamentos sobre Ramalho Ortigão, escritor (1836 – 1915).

A batota (jogo de cartas), na Foz do Douro, há cerca de 155 anos atrás

Sob o título “Uma das jogatinas” escreveu, em novembro de 1882, Ramalho Ortigão, que tinha participado, pela derradeira vez, cerca de vinte anos antes, numa batota em São João da Foz.
A espelunca, como a intitulou, funcionava na Assembleia do Mallen, na Praia dos Ingleses, com um terraço sobre o mar e com entrada pela rua da Senhora da Luz.

Desenho, assinado por JPedrozo, está publicado no livro As Praias de Portugal, da autoria de Ramalho Ortigão, com a indicação de que se trata da Praia dos Ingleses.
Referiu ainda que o jogo estava armado sobre uma vasta mesa forrada a pano verde, iluminada por um candeeiro de tecto no meio do grande salão de baile.
Em torno da mesa encontravam-se homens da melhor sociedade do Porto e da província do Douro e do Minho, a banhos na Foz, que formavam, entre os sentados e os de pé por detrás destes, três ou quatro círculos concêntricos.
A regra do jogo, descreveu-a assim: “Tiravam-se do baralho duas cartas que um dos homens, ao serviço da casa, colocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por sinal, o três de espadas a um lado e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, para apostar por ela, a carta que queria e colocava-lhe ao lado o preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, segundo era um rei ou um terno de outro naipe a primeira dessas duas cartas que em seguida saía do baralho”.
O nosso escritor foi a jogo com mil reis (100$000) e perdeu-os. E acabou por jogar, até de manhã, todo o dinheiro que possuía naquela noite. E não seria pouco, pois, segundo relatou, tratava-se da importância que tinha recebido nesse dia, pela colaboração, durante meio ano, num jornal americano.
Porem afirmou que o jogo era uma asneira. E discordava do governo ao mandar castigar as asneiras em que cada um incorre. Evita-las ainda achava que se podia permitir.
E escreveu: “Se tivessem de ser presos todos aqueles que fazem asneiras o próprio governo seria uma coisa impossível porque há muito não haveria ministro nenhum que andasse solto.”

Ramalho Ortigão viveu em Carreiros.

Há quem diga que o escritor Ramalho Ortigão terá vivido na Foz do Douro. Tendo em conta um dos seus escritos, por volta de 1883, publicado no livro “As Farpas”, volume I, sob o título “AS PRAIAS, S. João da Foz – Como a gente se diverte – O homem jocoso – Banhos e banhistas”, viveu em Carreiros numa casa em frente ao paredão do quebra-mar, um pequeno porto de abrigo das lanchas de pesca em dias de mau tempo.

Molhe de Carreiros. Imagem certamente posterior à época a que se refere Ramalho Ortigão (1833)

Esse local faz parte da freguesia de Nevogilde que naquela altura estava ainda integrada no concelho de Bouças. Só mais tarde, em 1895, passou a pertencer ao concelho do Porto. Certamente que na altura, tal como ainda hoje, aquele local é muitas vezes designado como sendo Foz do Douro. Claro que poderá ter residido em outro local situado em S. João da Foz, mas nunca encontrei qualquer referência.
Alguns anos mais tarde um sobrinho do escritor, de nome Francisco Ramalho Ortigão, conhecido como R.O. F., pseudónimo que usava na sua mocidade para assinar, como jornalista, os seus artigos, viveu na rua do Alto de Vila, numa bela residência, segundo descreveu o Brigadeiro Nunes da Ponte no seu livro “Recordando o Velho Porto” (editado em 1963), casa onde explorou uma fábrica de tapetes que exibia nos seus jardins, para venda.
Caricatura de Francisco Ramalho Ortigão, da publicação Recordando o Velho Porto, da autoria do Brigadeiro Nunes da Ponte

Não se sabe onde se situava a casa mas presume-se que ficava na esquina com a rua de D. Miguel da Silva.
Este sobrinho do escritor, como bom cavaleiro que pelos vistos era, foi um dos organizadores do Centro Hípico do Porto.
Mas foi também um dos membros assíduos do Cube Rigollot, que reunia à porta da Farmácia Amorim, que outrora existiu na esplanada do Castelo, em frente ao Forte de São João Baptista, vulgo Castelo da Foz.
Francisco Ramalho Ortigão era contemporâneo e amigo do Brigadeiro Nunes da Ponte.

Voltando a Ramalho Ortigão, escritor, é interessante ler algumas das suas descrições a partir do local onde vivia.
Uma delas é a referência que fez sobre uma de rocha negra, áspera, duramente recortada como uma grande flor granítica, que sobressaia da superfície plana da cantaria do paredão do quebra-mar. Escreveu Ramalho Ortigão que reconhecia essa rocha com a mesma ternura saudosa como um velho móvel de família pelo facto de ali se ter sentado em criança, com o seu chapéu de palha e o seu bibe cheirando ao algodão novo azul e branco da fábrica do Bolhão.
Referindo-se também à bela estrada da Foz a Leça escreveu que por ali rodavam listradas com longas faixas de cores vivas, as carruagens americanas e no mastro da torre do farol na Senhora da Luz (referia-se ao Monte da Senhora da Luz no cimo da rua do Farol) flutuavam os galhardetes triangulares com os quais se emitiam sinais da terra para os navios.

Nesta imagem da avenida de Carreiros podemos ver, no meio das casas, mais elevado, o farol da Senhora da Luz e o mastro.

E que à beira da estrada as novas edificações se destacavam do fundo verde-negro dos pinhais que cobriam as colinas sobranceiras.
Depois de algumas considerações sobre a forma como eram tratados os muitos banhistas que ocorriam às praias para os banhos entre a barra e o molhe de Carreiros, na sua opinião com muitas falhas, descreveu como as pessoas utilizavam o seu tempo após os banhos.
Assim, durante o dia (depois das dez ou onze horas da manhã, quando findavam os banhos) as senhoras deixavam enxugar o cabelo e tocavam nos pianos a Marcha Turca de Mozart.
Ao fim da tarde passeavam-se na totalidade, aos encontrões, no Passeio Alegre.
Aos sábados à tarde saía menos gente à rua do que em outros dias.
Aos domingos saía toda a gente.
Às segundas feiras não saía ninguém.
E interrogava-se. Qual a razão deste fenómeno? Concluindo que ninguém o sabia.
A Foz, escreveu, sobredoura os seus encantos com a posse deste mistério insondável.

Agostinho Barbosa Pereira - junho de 2017.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Nos cem anos d´O Orfeão da Foz do Douro



O Orfeão da Foz do Douro assinala, neste primeiro dia de 2016, cem anos de existência.

A propósito disso quero aqui deixar algumas notas sobre aspectos relevantes na longa vida desta associação de cultura e recreio, sediada na rua das Motas, nºs 9 a 19, nesta freguesia.


Fundação

A sua fundação é reportada a 1 de janeiro de 1916, data em que o seu grupo coral se apresentou em público pela primeira vez num concerto realizado na escola infantil nº 2 (mais tarde designada escola primária masculina nº 85) ao Passeio Alegre.

Concerto sob a batuta do seu primeiro regente, José de Matos Vilar, uma grande figura de então em tudo que se relacionava com a música e o canto. Segundo rezam escritos da época, este evento obteve enorme sucesso, facto que serviu de incentivo para que um grupo de rapazes da Foz do Douro se dedicasse com afinco ao desenvolvimento da colectividade.

Existe na sede do Orfeão um quadro onde estão descritos como fundadores: Sebastião Campos, Alfredo José de Pinho, António Cunha Matos, José Vitorio Ferradanes Iglésias e Hernâni Júlio Rocha Lima. Porém, numa notícia publicada em 19 de abril de 1931, no jornal “O Piparote”, a propósito da festa anual do Orfeão da Foz do Douro, é referido, citando elementos da direcção de então, que os fundadores da colectividade teriam sido: António Pereira de Campos, Mário Bernardes, José dos Reis Ovideo, Manuel Martins Rodrigues e Alfredo Baptista Nogueira. Apenas o nome de Sebastião Campos é citado como membro directivo a partir de 1924. Mais diz aquela notícia que o Orfeão da Foz do Douro veio a fundar-se definitivamente em janeiro de 1917 (o dia não foi indicado) e que realizou a sua primeira Assembleia Geral  a 17 do mês seguinte. Teria havido uma refundação em Janeiro de 1917? Fica a dúvida!

Porém, por divergências surgidas no seu seio, acabou por interromper a sua actividade, pouco tempo depois da fundação, até ao ano de 1924. Neste ano reorganizou-se e passou a usar provisoriamente, como sede provisória, a já citada escola infantil, no Passeio Alegre.

A partir do ano de 1924, inclusive, o grupo coral, fez variadíssimas actuações públicas, a primeira das quais no "Au Rendez-Vous d´Êlite", mais tarde designado por Cine Foz, bem como em muitas outras salas do Norte, sendo que numa delas, em Felgueiras, pouco tempo depois de iniciar a actividade, já contava com oitenta executantes. Foi crescendo e cada vez mais conhecido e famoso. Dizia-se, na altura, que o nome da Foz do Douro “ecoava” por toda a parte.

A 24 de maio de 1925 é organizado o corpo cénico do Orfeão da Foz do Douro, com Jacinto dos Santos, José Aveleda e Margarida de Queiroz.

Reconhecimentos relevantes

A 23 de Dezembro de 1934, numa cerimónia realizada no salão da escola nº 85, ao Passeio Alegre, incluída nas festas comemorativas organizadas pelo Orfeão da Foz do Douro, foi entregue à colectividade o título de Oficial da Ordem de Benemerência, que lhe havia sido conferido pelo Presidente da República, à época, Marechal Carmona, por proposta do governo, tendo em conta os serviços que o Orfeão havia até então prestado à causa pública, participando com os seus agrupamentos, de canto e cénico, em iniciativas de apoio social. Esse título e respectiva medalha, foram entregues pelo representante do governo, Coronel Nunes da Ponte, cerimónia à qual estiveram presentes as mais altas individualidades civis e militares do Porto,

Foi ainda nesse dia que o associado do Orfeão da Foz do Douro, escritor Antero de Figueiredo, abriu, com uma dedicatória, o livro de Honra, que na colectividade havia sido criado. Aproveitou o facto da presença de várias individualidades na cerimónia para obter delas uma saudação no livro. O ilustre escritor finalizou a sua dedicatória com as seguintes palavras: “Leitores, está aberto este Livro de Honra. Espíritos de qualidade, almas boas, deixai aqui o registo dos vossos nomes – os vossos cumprimentos ao Orfeão da Foz do Douro.”

Em 1996 o Orfeão da Foz do Douro foi muito justamente homenageado pela Câmara Municipal do Porto, com a atribuição do mais alto galardão da cidade, a Medalha de Ouro de Mérito Municipal, por recomendação unânime da Assembleia Municipal. Esta distinção foi baseada no longo historial da associação, documento que anteriormente havia sido depositado nos serviços camarários respectivos.   

Locais, na Foz do Douro, onde teve a sua sede social, antes da actual.

Até se fixar no edifício actual, por volta de 1938, ocupando apenas uma parte do prédio, teve sede em alguns locais da Foz
Sede do O.F.D. (foto de 2003)
do Douro. Desconhecem-se as datas e o tempo de permanência em cada um. A sua primeira sede, ainda que provisória, foi, como atrás refiro, na Escola Infantil nº 2, ao Passeio Alegre. Mais tarde mudou-se para a rua Central (actual rua do Padre Luís Cabral) nº 868. Terá posteriormente ocupado instalações no Café Central, que existiu outrora na rua Senhora da Luz, do qual não se sabe o número. Teve depois sede na rua das Motas, nº 6. Posteriormente na rua de Cadouços, nº 79, na rua Bela, nº 3 e na rua do Passeio Alegre, nº 928. Regressou à rua das Motas, ao edifício nºs 9 a 19, tal como antes é citado, por volta de 1938. Passados bastantes anos, passou a ocupar toda a casa. Por inícios dos anos oitenta adquiriu o edifício/sede, com recurso a um empréstimo bancário (há muito liquidado).

Foram muitas as actividades do Orfeão da Foz do Douro ao longo da sua longa existência. Tentar descrevê-las nestas notas tornaria este texto demasiado extenso. A sua discrição e desenvolvimento ficarão para um trabalho a realizar futuramente.

Estas notas foram elaboradas com base em dados colhidos em documentos e publicações, mas também pelo conhecimento que fui adquirindo durante a minha actividade nos doze anos em que presidi à direcção do Orfeão da Foz do Douro, de que muito me orgulho.

Parabéns ao Orfeão da Foz do Duro e votos de muitos sucessos e muitos anos de vida.

01 de janeiro de 2016

Agostinho Barbosa Pereira



quarta-feira, 3 de junho de 2015

Resumida história de um movimento na Foz do Douro, há cerca de 41 anos, no qual participei com o escritor António Rebordão Navarro e outros.


A minha convivência com António Rebordão Navarro começou, nos inícios dos anos setenta, no café Moreira, à rua Senhora da Luz, ainda que o conhecesse muito tempo antes.

Ele era um frequentador assíduo daquele café, muitas vezes acompanhado da esposa, saudosa Virgínia, uma das três filhas do senhor Adrião que morava na rua de S. Bartolomeu, julgo.

Acabei por fazer parte de uma “tertúlia” que tinha lugar, de quando em vez, em casa do Pimentel, na rua de Cândida Sá de Albergaria, onde, para além de Navarro, se juntavam; o Branco, médico psiquiatra que vivia da rua do Faial; o meu amigo e companheiro Júlio Amorim (já há muito falecido) e outros, dos quais já não me ocorrem os nomes.

Após a revolução de abril começaram a surgir em algumas freguesias do Porto movimentos com vista à “tomada” das juntas de freguesia com a intenção de as colocar democraticamente ao serviço das populações. No caso de Ramalde, soube-se que o grupo, liderado por um homem chamado Reis, tomou a junta de freguesia de assalto instalando-se com funções executivas, lugares e pelouros distribuídos.

Edifício da sede da Junta de Freguesia da Foz do Douro
Também na Foz do Douro se criou um grupo, com objectivo idêntico, encabeçado por António Rebordão Navarro, composto pelos já citados: Branco, Pimentel, Júlio Amorim e eu. Por convite de Navarro também se juntou a este grupo Joaquim Picarote (há muito falecido) que vivia na rua do Farol e havia sido um entusiasta de várias iniciativas na Foz, nomeadamente os cortejos do traje de papel integrados nas festas a S. Bartolomeu, nesta freguesia.

Porem, a ideia de Rebordão Navarro, com a qual todos concordamos, não era a de se tomar a junta por assalto, mas legitimados através da assinatura de residentes na freguesia. E assim, cada um fez circular exemplares de papel azul de vinte e cinco linhas para a recolha de assinaturas. Não posso precisar quantas assinaturas colhemos, mas recordo-me que o volume de folhas era grande. Foram certamente milhares. O seguinte passo foi o da entrega no antigo governo civil do Porto, do abaixo assinado. Solicitada a audiência viemos a ser recebidos, não pelo governador, visto que não havia ainda sido nomeado pelo governo provisório, mas pelo secretário, Januário Nunes, a quem estava cometida, por lei, a função de substituição e que foi muito atencioso para o com o nosso grupo, mas apenas se limitou a ouvir-nos e a receber os papéis, com a promessa de que os entregaria ao próximo governador. Informou-nos que não dispunha de poderes para nomear qualquer comissão administrativa nas juntas de freguesia.

Algum tempo depois tive a oportunidade de conversar com Mário Cal Brandão, que estava indicado e veio a tomar posse, em setembro de 1974, como governador civil do Porto, a quem dei conhecimento das nossas diligências na intenção de gerirmos a Junta de Freguesia da Foz do Douro democraticamente. Contudo este informou-me que sabia da intenção do governo em instruir os novos governadores para que nomeassem um representante de cada partido (PCP/PS/PSD) nas freguesias com vista à constituição de comissões administrativas até às eleições autárquicas. Assim veio a acontecer, com excepção de Ramalde onde permaneceu nomeado o grupo, a que já me referi, até às eleições autárquicas que se realizaram em finais de 1976.

Gorou-se assim a ideia do nosso movimento, encabeçado por António Rebordão Navarro e criado especificamente para a democratização da autarquia local, que permanecia com um executivo cujo presidente tinha mais de vinte anos de mandato e que se chamava Álvaro Gomes.

Rebordão Navarro era nessa altura militante do MDP/CDE. Em eleição autárquica posterior chegou a candidatar-se à Junta de Freguesia da Foz do Douro pela CDU, mas acabou por renunciar ao lugar.

Tudo isto aconteceu antes de eu iniciar funções, após concurso, na junta de freguesia da Foz do Douro, onde trabalhei vinte e oito anos. Resta-me dizer que durante os anos em que trabalhei na junta de freguesia e em acções da associação “O Progresso da Foz” da qual fui fundador e dirigente, do Orfeão da Foz do Douro, onde exerci o cargo de presidente da Direcção durante doze anos ou de outras actividades em que tomei parte, como a feira de artesanato da Foz do Douro, tive muitos contactos com António Rebordão Navarro com quem tive sempre a melhor relação, apesar da crítica (justa) que me fez, numa das crónicas que escreveu no Jornal de Notícias, por, enquanto responsável pela exposição retrospectiva de S. Bartolomeu, que realizei no Castelo da Foz em agosto de 1991, ter omitido uma das realizações que ele Rebordão Navarro havia levado a efeito, em meados dos anos oitenta, enquadrada nas festas a S. Bartolomeu e designada “Jogos Florais”. Mas isso não provocou qualquer problema entre nós, apresentadas que foram as desculpas.

António Rebordão Navarro deixou-me (e certamente a muitos que privaram com ele)  saudades, não só no aspecto pessoal, como no literário. Ainda que este, nas muitas obras que nos legou, permaneça vivo para sempre.

Agostinho Barbosa Pereira - 30 de Maio de 2015.





António Rebordão Navarro, poeta e ficcionista, nasceu na Foz do Douro a 1 de Agosto de 1933. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu advocacia no Porto. Secretariou e dirigiu a revista literária Bandarra, fundada por seu pai, o escritor Augusto Navarro. Foi co-director da revista de poesia Notícias do Bloqueio, e em 1975 dirigiu a Biblioteca Pública Municipal do Porto. Depois da poesia, estreou-se com As Três Meninas e Outros Poemas (1952), a que se seguiram O Mundo Completo (1955), Os Animais Humildes (1956), Aqui e agora (1961) e 27 Poemas (1988) — enveredou pela ficção narrativa a partir de Romagem a Creta (1964). Com Um Infinito Silêncio (1970) obteve o Prémio Alves Redol e ao seu romance Mesopotâmia (1984) foi atribuído o Prémio Internacional Miguel Torga. Publicou, ainda, o romance O Parque dos Lagartos (1982). O seu livro A Praça de Liége (1988) foi distinguido com o Prémio Literário Círculo de Leitores.
Imagem da praça de Liége num postal editado nos inícios do séc. XX
Publicou ainda, entre outras obras, a antologia Poetas Escolhem Poetas (1992).

Faleceu a 22 de abril de 2015, na sua casa, sita à rua do Passeio Alegre, na Foz do Douro.

Para a cooperativa Sociedade Portuguesa de Autores, a quem António Rebordão Navarro havia doado a sua casa em 2010, este "foi uma figura sempre activa na vida cultural e cívica do Porto", tendo esta entidade criado um prémio literário com o seu nome.

Casa onde viveu e morreu o escritor Rebordão Navarro, na rua do Passeio Alegre, frente ao jardim.


As Mulheres da Cantareira

Naturalmente, antes de as manhãs 
pegarem fogo a todas as palmeiras, 
gastaram elas os perfumes nas rochas,
levaram os seus seios para as ondas, 
lavaram os sexos no rio,
lavraram os limos com os lábios.
Anteriores às gaivotas,
desenharam o seu voo nas águas,
descrevendo na areia
o coleante deambular dos vermes,
vendidos no termo das semanas
aos amantes da pesca.
Virtualmente, antes de o inverno
lhes mudar o semblante,
comer à sua mesa e violá-las,
elas eram só música,
trazendo, levando, conduzindo
todos os barcos pelo mar do seu corpo.
Mais antigas que os ventos e a paisagem, 
muitas vezes fizeram de sereias, 
de estrelas breves consumidas 
em vinho ou em cerveja, 
outras de frio aço e aguardente, 
alguns momentos de tabaco loiro.
(São putas? São fidalgas? São senhoras? 
Netas bastardas de Raul Brandão?)
Meigas, transparentes, adejantes, 
antes de os elementos 
cismarem em criá-las, 
já elas eram feitas 
como deusas cumpridas 
em fumo, mito e névoa.
Como estátuas fenícias? 
Como estátuas.

(ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Azulejo - A Foz do Douro, logo que ele apareceu em Portugal, adoptou-o.

Os "brasileiros" como eram chamados os ex emigrantes portugueses, regressados do Brasil, em meados do séc. IX, trouxeram o gosto de forrar o exterior das casas com azulejos.
Fabricados no Porto, em fábricas como a de Massarelos, nesta cidade e a dos Carvalhos, em Gaia, fábricas essas compradas por alguns desses ex emigrantes, eram um material barato e durável.
Protegiam especialmente as casas na Foz do calor do sol, no verão, e da humidade, vinda do mar, no inverno.
Pouca azulejaria dessa época existirá na Foz do Douro, ainda que alguma, da aplicada em interiores como decoração, esteja ainda hoje protegida, oculta no interior de edifícios, como é o caso da existente na casa designada como "Mourisca", no Passeio Alegre.
A Capela de Santa Anastácia, na rua do Padre Luís Cabral, desde 1880 até há bem poucos anos, era um exemplo onde existia esse revestimento de exterior, com azulejos de cor azul e fundo branco. Dele só restam imagens.

Capela de Santa Anastácia revestida ainda a azulejo.

Há porém um local onde os azulejos estão devidamente restaurados e conservados. Os sanitários do Jardim do Passeio Alegre. Ali encontramos azulejos Arte Nova, datados de 1888, ano da inauguração daquele jardim.

Uma vista de interior dos sanitários do Jardim do Passeio Alegre

Encontramos ainda belos painéis de azulejos na casa chamada de "Manuelina", na avenida do Brasil, desconhecendo-se a data da sua colocação. Mas esses estarão condenados à "morte lenta", tal como está o edifício.

Casa Manuelina ou Casa do Relógio de Sol. Alguns painéis visíveis nesta imagem de 25-01-2015.

Texto de Agostinho Barbosa Pereira, publicado em  na Página do Facebook "A Nossa Foz do Douro". Fonte: Revista "O Tripeiro".

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Capela de Nossa Senhora da Luz de Gondarém, em Nevogilde, Porto

Construída a expensas dos moradores das imediações, com parte da pedra da demolida capela de Santo Elói, que anteriormente existia na freguesia de São Nicolau, (mesmo ao lado da igreja de São Francisco), foi aberta ao público em 1884. 

Da relação de despesas com a sua construção consta, como primeiro encargo, o custo de 170$000 a favor de Manuel Ferreira Leite de Carvalho pela remoção de pedra do Porto (local da capela de Santo Elói) para a Foz (Gondarém). 

A capela de Nossa Senhora da Luz de Gondarém numa imagem publicada no início do Sec. XX
Em 1912, dois anos depois da implantação da República em Portugal, a Junta de Freguesia de Nevogilde, para desgosto dos moradores, mandou prender a pessoa encarregada das chaves e da limpeza da capela e impediu a sua reabertura, apesar da reacção do povo. 

Em 18 de Abril de 1918 foi a capela devolvida ao culto, por decisão do governo de então, em decreto assinado por Sidónio Pais. 

A 18 de fevereiro de 1919, a autarquia de Nevogilde exigiu as chaves e encerrou novamente a capela. Em 24 de agosto de 1922 foi desafectada ao culto e cedida, bem como o terreno anexo, àquela junta para nela instalar a sede e o seu arquivo, e no terreno construir uma escola primária. 

Transformada e desfigurada, com a construção de um primeiro andar, resultou, de aspecto, numa banal casa de habitação. 

Mais tarde foi esse edifício solicitado pela paróquia. Conseguida a pretensão em 1944 pelo ministro das finanças de então, foi este destruído e no mesmo local construída nova capela que alí existe ainda.

Em 23 de novembro de 1946, o então pároco de Nevogilde, Dr. Conceição e Silva procedeu à benção da capela, tendo alí sido celebrada, no dia seguinte, uma missa pelo Bispo D. Agostinho de Jesus e Sousa. 

A actual capela que foi construída no local onde anteriormente existiu a primitiva.
(fonte: livro "São Miguel de Nevogilde" de D. Domingos de Pinho Brandão, Bispo Auxiliar do Porto. Edição da Igreja de Nevogilde, em 1983) 

Texto e imagem da capela actual, da autoria de Agostinho Barbosa Pereira ©, publicados também na Página "A Nossa Foz do Douro", do Facebook, em 01 de junho de 2014.

domingo, 6 de abril de 2014

O Padre Luís Cabral

O Padre Luís Gonzaga Pereira Cabral, que deu nome à rua do Padre Luís Cabral, anteriormente designada por rua Central (e anteriormente, rua Direita), nasceu no número 901 daquela artéria da Foz do Douro, em outubro de 1866.
 
A casa (frontaria de cor amarela) onde nasceu em 1866 o Padre Luís Cabral

Seus pais, Maria Emília da Conceição Ribeiro Coelho e Constantino António do Vale Pereira Cabral, fidalgo cavaleiro da Casa Real e comendador de Cristo, embora vivendo na rua das Flores, na baixa do Porto, tinham casa na Foz do Douro onde durante anos passavam o mês de Outubro. 

O Padre Luís Cabral
Luís Cabral, depois de ter passado a infância entre a rua das Flores e a rua Central, foi aos nove anos para o Colégio de Campolide, em Lisboa, onde iniciou a sua formação como jesuíta. 

Mais tarde, esteve em Toulose, França formando-se em filosofia. E entre 1894 e 1899, fez ali também o curso de Teologia. 

Teve muita actividade, após o seu regresso a Portugal cinco anos mais tarde. Com a implantação da República, em 1910, surgiram as expulsões dos jesuítas. O Padre Luís Cabral exilou-se então na Bélgica, durante cinco anos. 

Mais tarde, rumou ao Brasil, onde fundou, na Baía, um colégio. Faleceu em Junho de 1939, naquela cidade brasileira, após prolongada doença.

Deixou um vasto legado literário publicado, entre livros, folhetos, discursos e algumas composições dramáticas.

Texto e imagem (casa) da autoria de Agostinho Barbosa Pereira, publicados em 15-03-2014, na página do Facebook,  "A Nossa Foz do Douro".

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A Ermida do Monte da Luz

Escreveu, em 21 de abril de 1758, o Vigário Frei Francisco de Jesus Maria, em informação que elaborou sobre S. João da Foz do Douro, destinada ao Bispo do Porto de então, D. António de Távora, que este lugar tinha cinco ermidas, designando como primeira a que tinha evocação a Nossa Senhora da Luz, mandada edificar, segundo ele, por um abade de Santo Tirso.

Segundo aquele escrito estava situada, fora do lugar, para a sua parte do norte, a “dois ou três tiros de espingarda”, na mesma distância do mar e mais elevada do que a povoação. Possuía uma torre “velha unida” e tinha no interior três altares. No maior, ao centro, a Senhora da Luz (imagem que se encontra na Igreja Matriz), cujos festejos ocorriam a 8 de setembro. Na parte direita, Santa Ana e na parte esquerda, Frei Pedro Gonçalves, este festejado por devotos navegantes na segunda-feira de Pascoela.


Esta Ermida não foi poupada pelas tropas Miguelistas durante o cerco do Porto (existia junto a ela um forte militar de defesa, que foi atacado) ficando bastante destruída o que motivou que decidissem demoli-la em 1835 só ficando de pé o farol, que havia sido construído muito antes, paredes-meias com a capela.

O Farol, vendo-se à esquerda as ruínas da Ermida. Desenho de Vilanova.

Na “Planta das Linhas do Porto” o coronel Arbúes Moreira, em 1833, assinalou a existência, no monte da Senhora da Luz, de um farol e um forte. Há dados que permitem afirmar que a capela já existia em 1680.

Em texto publicado no boletim da Câmara Municipal do Porto, com o título “Nossa Senhora Protectora do Porto”, Adriano Coutinho Lanhoso escreveu, sobre uma petição de 04 de janeiro de 1680, dos “Mordomos de Nossa Senhora da Luz” ao Bispo do Porto para que fosse dada autorização para a reconstrução da Ermida.

Planta Geográfica da Barra da Cidade do Porto, de Teodoro de Sousa Maldonado, em 1789. A Ermida de Nossa Senhora da Luz está assinalada por uma seta.

Nessa altura o então Vigário de S. João da Foz do Douro, Reverendo Sebastião Freire, terá confirmado, a pedido do Bispo, que a Ermida estava bastante destruída, devido ao tempo, garantindo que existiam muitos devotos à Senhora da Luz. Esta Capela era visível do mar a muitas léguas, referiu S. Oliveira Maia, no seu livro “Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa”, edição de “O Progresso da Foz”, em 1988, pelo que era por isso muito invocada, em momentos de perigo, pelos mareantes.

Está patente, numa das paredes do farol, uma placa com a seguinte inscrição: “Fundação em 22 de Agosto de 1680”. Mas há quem afirme que se trata da data da sua reconstrução, a que atrás aludi, e não a da sua origem.

A placa não poderá ser referente ao farol, como alguém já afirmou, porque este terá sido construído após a publicação em 01 de fevereiro de 1758, de um diploma do governo, assinado pelo Marquês de Pombal, em que sem mandava, com urgência, construir um farol nas proximidades do Porto.

O edifício onde funcionou o farol. Desenho de Salgado Guimarães em 1991

Muito ainda há para saber sobre esta Ermida e os seus festejos, dos quais não me parece existirem imagens. Aliás nem da própria Capela.

Contudo, uma dúvida se nos coloca. Sendo uma Capela com tantos devotos, não só de gentes da Foz, como dos seus arrabaldes, originando que o Monte da Luz se cobrisse de povo, porque não terá sido reconstruída, a partir de 1833, ano em que findou a guerra civil do cerco do Porto?

Texto de Agostinho Barbosa Pereira, publicado em 02 de fevereiro de 2014, na Página “A Nossa Foz do Douro” do Facebook..

Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

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