Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos fora parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, avenidas essas que outrora constituíram a Avenida de Carreiros, construída para ligar a Foz a Bouças. Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como refere o historiador Germano Silva, num recente artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há pouco mais de 20 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, frente ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

segunda-feira, 12 de Abril de 2010

A "Menina nua"


- uma estátua que todo o Porto conhece...

Chamava-se, Aurélia Magalhães Monteiro, e era conhecida por Lela, Lelinha ou pela «Ceguinha do 9» - para a eternidade ficará sempre a ser a «Menina Nua» da Av. dos Aliados, ou ainda uma estátua que toda a cidade conhece e aprecia.
Nasceu no dia 4 de Dezembro de 1910, na freguesia do Bonfim, e pouco tempo antes de falecer, dizia-me «que tinha sido uma das mulheres mais apreciadas e cobiçadas do seu tempo...».
Vivia no rés-do-chão do Bloco 9, do Bairro da Pasteleira, numa casa simples e humilde com flores a enfeitarem a entrada e a sala de jantar.
Um dia convidou-me a entrar e contou-me um pouco da história da «Menina Nua»: - «Tinha 21 anos quando fiz de modelo para o Henrique Moreira, o mestre que fez a estátua; mais tarde colocaram-me na Av. dos Aliados - que belos anos aqueles! Estive duas semanas a «posar» e ainda hoje recordo com alegria e saudade aqueles momentos de trabalho, pois posso morrer amanhã que todos ficarão a saber quem era a Lela... Além disso, nessa altura, dava-me bem com os artistas, era bonita e eles convidavam-me, andava por toda a parte, ganhei uns «cobres» com o Henrique Moreira, mas hoje... resta-me a consolação de estar ali, de costas voltadas para o Almeida Garrett e de frente para o D. Pedro IV. Perguntei-lhe nessa altura, se não tinha existido certos problemas com a estátua, a sua nudez, por exemplo: proibições, censuras?
-«Ela respondeu-me - bem, sabe que naquela época, havia certos sectores que se opunham claramente e até ficaram escandalizados com a «Menina Nua»; nós éramos muito tacanhos, e veja bem que há 50 anos, a ideias eram realmente diferentes, havia o Salazar, a Pide e o povo era mais fechado, mais religioso - felizmente o mestre Henrique Moreira conseguiu «levar a água ao seu moinho», e lá fiquei de pedra e nua, assim como Deus me votou ao Mundo... (Sorriu de imediato, mostrando ainda réstias de um rosto bonito e de uma boca fina, onde rareavam já alguns dentes, vítimas do peso dos anos e das canseiras e desgraças da vida). -... Além disso, imagine uma «moçoila» no tempo «da outra senhora», a expor-se toda nua perante uns homens de tela e pincéis ou bocados de pedra, bem... era quase como ser comunista ou mulher da vida...
Fez-se uma pausa para mandar-mos umas «bocas» contra o sistema do antigamente e prossegui nessa altura, perguntando-lhe: - quando e onde tinha começado a ser modelo? Antes de me responder, fica um pouco pensativa, levanta-se e encaminha-se para o seu quarto, vasculha dentro do guarda-vestidos e traz-me um amontoado de papéis e fotografias - Vá, veja lá tudo isto, diz-me: (anotei visualmente uma série de fotografias, pequenas referências, recordações e memórias da «Menina Nua»): «... De qualquer modo e se a memória não me falha, comecei com o mestre Teixeira Lopes, na figura-modelo da rainha D. Amélia, esta estátua encontra-se actualmente no Museu com o mesmo nome, em Vila Nova de Gaia. Nessa época, tinha muita vergonha - era uma «moçoila» com 18 anos, bem feita e bonita -, a minha mãe tinha falecido e fiquei mais tarde com uma madrasta, de quem por acaso não gostava nada, por isso mudei-me para o Bonfim, para casa da minha santa avó. Que tempos... nessa altura, iniciei-me como modelo nas Belas Artes do Porto e lentamente fui-me habituando, até que fiquei mais descarada... (Levantou a cabeça, e numa reflexão interior com risos de vaidade e inconformismo), continuou:... Ah, nesse tempo, punha a cabeça dos rapazes em fogo, era bonita e não havia ninguém que não me conhecesse como a «Menina Nua». Depois passei alguns anos como modelo, andei pelo Norte, pelo Sul e até a Lourenço Marques (hoje Maputo) eu fui - fiz de modelo para vários mestres, entre eles: Acácio Lino, Joaquim Lopes, Dórdio Gomes, Sousa Caldas, Augusto Gomes, Camarinha e os consagrados, Henrique Moreira e Teixeira Lopes. Além da «Menina Nua», estou no Buçaco, no Cinema Rivoli, em Lisboa e em Moçambique... e hoje? como vê aqui estou desde os 43 anos cega, uma vida difícil de adaptação, um mundo escuro, negro. E mais negro se tornou, aquando da morte do meu marido, fiquei completamente só.
Hoje, passados alguns anos, tenho um casal a viver comigo, sempre me ajudam a pagar a renda e a «fazer-me» um pouco de companhia. Tenho umas ajudas do Centro de Dia da Terceira Idade, ligado ao Centro Social cá do bairro, onde vou almoçar e lanchar, enfim, sempre ajuda a passar o tempo e a velhice. Mas o que eu, mais desejava na vida, além de mais dinheiro para viver, era dos meus ricos olhos... (algumas lágrimas correram-lhe pelas faces, enquanto se preparava para ir almoçar ao Centro...) Despedi-me dela, tentando consolá-la com frases de carinho e amizade, mas... a vida é um cão que não conhece o dono; ela despediu-se (nessa altura), com um bom dia, entrecortado com um sorriso mor gaiato, misto de Ribeira, Bonfim e Pasteleira...
Aurélia Magalhães Monteiro, a Lela, Lelinha, ou a «Ceguinha do 9», faleceu no dia 2 de Junho de 1992, com 82 anos de idade; no entanto a «Menina Nua», continua viva, fixa e eterna, ali na Av. dos Aliados envolta nos nevoeiros citadinos, perpétua e ardente, nos dramas e vitórias deste povo.
Do livro Pasteleira City, de Raul Simões Pinto – edições pé de cabra – Fevereiro de 1994

7 comentários:

  1. Adoro a «Menina Nua», desconhecia a história da modelo. É bom ler sobre a nossa cidade desta forma. Parabéns pelo blogue! Beijinhos, Luisa Oliveira

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  2. Andava à procura desta entevista e não sabia como encontrá-la. E ainda bem que alguém guarda as memórias da nossa cidade.
    Jorge Portojo

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  3. Vim viver para o Porto com 6 anos de idade para a Foz. Certo dia ao passar na Pasteleira de carro,(+/-1970), a minha mãe disse-me que naquele bairro morava a mulher q servira de modelo p a estátua da menina nua nos Aliados. Nunca cheguei a conferir a história... Só agora, casualmente.

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  4. Gostei muito do texto da Menina Nua e embora já conhecesse alguma parte da sua história, este veio completar de uma forma muito interessante esses conhecimentos. Obrigada. Sou do Porto e também já tive ocasião de a fotografar.)

    9 de Janeiro de 2012.
    A.Eudora

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  5. Cada vez tenho mais orgulho de ser "tripeiro". O meu falecido pai foi projeccionista cinematográfico nos anos 50 e 60 no Rivoli. Eu nasci em casa mais própriamente na Rua de Trás. Como eu conheço desconhecendo tão bem a "Menina Nua". Parabéns...

    José Dionísio

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  6. Meu caro,
    Transcrevi sobre a Lela porque mão amiga me enviou. Inseri em dois meus. http://aquitailandia.blogspot.com e http://maquiavelencias.blogspot.com . Sou homem do Porto e lá passei a minha infância... Já não vou lá há 30 anos... Vou lincar o seu blogue a um meu.
    Abração tripeiro.
    Da Tailândia
    José Martins

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  7. A Lela; Quantas Lelas e quantas historias lindas teremos nós em Portugal ? bem haja a quem as sabe e as divulga fazem parte da cultura do povo,
    JM (kiassa) - Lx.

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Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

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