Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Festas ao S. João na Foz do Douro, em 1934

Ao ler uma edição do jornal O Comércio de Leixões, de Junho de 1934, antigo semanário de Matosinhos, encontrei uma interessante notícia, sob o título "Os festivais ao S. João na Foz do Douro", da qual deixo aqui algumas notas.

Importa referir, antes de passar propriamente à citada notícia, que se havia inaugurado, nesse ano, no Palácio de Cristal, a 1ª Exposição Colonial Portuguesa. Nessa exposição esteve patente o monumento ao Esforço Colonizador Português, de Alberto Ponce de Castro e de José de Sousa Caldas, que se encontra na parte central da Praça do Império, na Foz do Douro, ali colocado 50 anos depois (1984) pelo então Presidente da C.M.P. eng. Paulo Vallada.

Foto do Palácio de Cristal, onde teve lugar a citada exposição, demolido mais tarde para a construção do actual pavilhão Rosa Mota.

Segundo noticia o referido semanário, a Comissão promotora das festividades a S. João, que se realizariam no jardim do Passeio Alegre, dias 23 e 24 de Junho, iria homenagear a exposição atrás referida.

O jardim do Passeio Alegre e a avenida das Palmeiras (que mais tarde se passou a designar, como actualmente, de D. Carlos I) estariam a ser dotados de apropriadas decorações, com milhares de lumes que, conjuntamente com a fonte luminosa do jardim, tornariam esses festejos memoráveis, como está expresso na notícia.

Ao Rancho Típico de Matosinhos estava incumbida a tarefa de produzir, com os seus bailados e descantes, um assombroso espectáculo.

A cascata, uma maravilha mecânica, seria um dos principais números de atracção.

Também a feira de manjericos, com as suas vendedeiras vestidas à moda do Minho, fariam a alegria do recinto.

Num dos lagos, do jardim, flutuaria uma caravela, com as insígnias da Cruz de Cristo, convidando todos os participantes a visitarem a homenageada exposição.

Segundo ainda aquele jornal, às 20 horas do dia 23, iriam surgir, de determinados pontos, três apreciáveis bandas. Sendo a primeira, a Banda Marcial da Foz do Douro, a segunda, a Banda de Sinfães (seria assim que se escrevia?) do Douro e a terceira, a Banda de Gueifães da Maia. Todas iriam executar repertório até às três horas da madrugada.

Com o programa pormenorizado, que me dispenso aqui transcrever, o Comércio de Leixões dedicou um bom espaço, de uma das suas páginas, para noticiar este importante evento na Foz do Douro.

Deixo aqui ainda os nomes dos organizadores da grandiosa (na opinião do articulista) cascata: Anselmo Moreira, Umberto Lima, Tomaz Pereira, Pedro Cruz e Júlio Passos.

Se estes festejos se previam memoráveis, pela grandeza da sua realização, também se tornaram memoráveis por marcarem o fim dos festejos de S. João naquele local, durante muitos anos, devido ao assassinato de um homem em plena festa, segundo diziam ao longo dos tempos muitos antigos fozeiros. Lembro-me bem de o meu saudoso pai me falar disso.

A foto seguinte é precisamente referente a essa festividade.


A imagem de S. João que se vê na mão de uma das pessoas da foto (que se supõe ser o Anselmo Moreira, um dos organizadores da cascata) foi oferecida pela comissão das festas na inauguração da citada cascata mecânica, como refere também o jornal O Comércio de Leixões.



Agostinho Barbosa Pereira

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Banheira de S. João da Foz



Encontramos a partir do séc. XVIII, em várias publicações, referências à banheira da Foz. Mas é no Album de Costumes Portuguezes, edição das Livrarias Aillaud e Bertrand (Paris/Lisboa), publicado em 1881, que à Banheira é dedicada uma página que, para além do desenho de M.Macedo, é descrita num excelente texto do escritor Ramalho Ortigão como uma “mulher robusta e vigorosa” , como proveniente “… de uma estirpe de outras banheiras, e constitue pelos seus caracteres heriditários uma casta distincta …” sendo que “…. sem esse privilégio selectivo, de nascença, nenhuma mulher tomaria por offício dar banhos, passando oito ou nove horas por dia, durante quatro meses do anno, mettida no mar até ao peito”.

E completava ainda o autor do livro As Praias de Portugal (1) que a sua diferença se impôs “ … pelo trajo, pelas attitudes, pela expressão physionomica, pelo sorriso, em que o vermelho vivo das gengivas e o branco pérola dos dentes lembra uma frescura de guelra e a respiração salgada cheirando a sargaço, pelo olhar límpido e profundo …”. Pelos vistos também muito alegres, porque “ … de madrugada, ao armar das barracas, quando ellas, accordadas com os primeiros massaricos prateados que debicam a salsugem da maré, entoam em coro de sopranos uma das muitas barcarolas locaes, uma aguda palpitação de poesia festival e triumphadora preenche o ar …”.  

Confessava o escritor ter sido a banheira Anna da Luz “ … a alegria para o meu coração inquieto, e o contentamento para a minha alma resignada”.

Também Eduardo Sequeira, na sua obra À Beira Mar, de 1889, escreveu que a banheira era “ … serviçal em extremo e sabe, com uma arte especial captivar a simpatia de todos, das crianças a quem anima, da rapasiada com quem confraternisa alegremente, e dos velhos cercando-os de considerações e respeitos, prodigalisando-lhes cuidados e confortos”.

O Banheiro. (Desconhece-se a data desta foto)

Ainda que Ramalho Ortigão referisse na citada publicação que o ofício de dar banhos se prolongava por quatro meses do ano, no seu livro As Praias de Portugal, escreveu: “no principio da estação, em Agosto, começavam a chegar à Foz os banhistas. Muita gente vinha do Porto de madrugada, tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito por carroções, um dos mais extraordinários inventos do espírito portuense, applicado à locomoção”.

Segundo o escritor, “ o carroção era um pequeno predio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Além das famílias que iam à Foz de carroção, havia as pessoas que iam em burros. Ao pé de Sobreiras parava tudo para desaguar o gado e para os homens comerem. Ninguém fazia o trajecto de ida e volta à Foz em menos de seis a oito horas, compreehendido o tempo do banho”.

Estrada da Foz, Por aqui passavam os transportes para as praias da Foz do Douro. Desenho de LLonch, 1887, do album Imagens do Porto Oitocentista, edição do Arquivo H. da Câmara Municipal do Porto.

Aos carroções seguiram-se os chas-à-bancs e desde que estes entraram na carreira da Foz, partindo do Carmo e da Porta Nobre (2) o movimento dos banhistas aumentou extraordinariamente e a vida nas praias da Foz do Douro, na opinião de Ramalho Ortigão, entraram na sua fase moderna.

Depois dos chas-à-bancs surgiu o americano, carro puxado a cavalos ou mulas. Este meio de transporte, segundo o citado escritor, converteu em pouco tempo a Foz num bairro do Porto, isto naturalmente pela substancial redução do tempo que levava a fazer o percurso.

Imagem da praia e casario da rua da Praia, muito anterior à construção da actual rua Coronel Raul Peres.

Consta que os banheiros da Foz do Douro festejavam o fim da época balnear, por altura da Romaria a S. Bartolomeu, uma das mais importantes festividades que se realizava a norte. Adornavam o corpo com algas e outros adereços de origem marinha e desfilavam pela praia em alegre brincadeira. Inicialmente esta festividade confinava-se à zona da areia. Mais tarde passou a fazer-se também pelos arruamentos junto à praia.

Figurantes do Cortejo de S. Bartolomeu de 1948. (foto gentilmente oferecida pelo saudoso amigo S. Oliveira Maia)

Crê-se que este festejo terá estado na origem do cortejo do traje de papel, que ocorre num domingo próximo de 24 de Agosto, dia consagrado ao Santo mártir. Talvez este seja único no mundo, no seu género, em que os seus figurantes se vestem de papel e percorrem várias artérias da freguesia culminando no mar, onde as roupas se desfazem num banho considerado por alguns como “banho que vale por sete”. Ao cortejo de S. Bartolomeu dedicarei proximamente um trabalho neste blogue.

Figurantes do quadro alusivo ao livro As Praias de Portugal, em desfile, no cortejo do traje de papel em 1991, sob o tema, Os Escritores Portugueses.

Para terminar, transcrevo os três primeiros parágrafos do capítulo dedicado à Foz do Douro, do livro As Praias de Portugal:


“ Foz! Saudosa Foz! Residência querida da minha infância tão afastada já – ai de mim! – d´estes annos duros! Com que terno prazer que eu te saúdo, sempre que te avisto, ou penso em ti!

Estamos bem mudados ambos – velha amiga! – tu do que foste, eu do que era!

No tempo em que eu ia de chapéu de palha e de bibe, à tarde, apanhar conchinhas na costa, pela mão de minha avó, tu eras grave, simples, burgueza, recolhida e silenciosa como uma horta em pleno campo”.


Como fozeiro, residente fora da Foz há mais de vinte anos, subscrevo as palavras de Ramalho Ortigão, com as devidas diferenças. Uma delas é que não ia pela mão de minha avó à praia, porque infelizmente já não conheci nenhuma das duas. Mas ia pela mão de minha mãe, ainda que a Foz já não fosse, nesse tempo, “recolhida e silenciosa”.



1)     As Praias de Portugal, Guia do Banhista e do Viajante – Porto Livraria Universal – 1875.

2)     A Porta Nobre situava-se cerca do meio da actual rua Nova da Alfândega, ainda que num plano inferior aquela artéria do Porto.


Agostinho Barbosa Pereira       

 

domingo, 12 de agosto de 2012

Florbela Espanca e Matosinhos


Florbela Espanca assume para Matosinhos elevada importância por vários factores dos quais destaco: Foi a cidade do norte do país, para onde veio residir com o segundo marido. Foi também nesta cidade que casou pela terceira vez (e a primeira religiosamente) e foi ainda a cidade onde preparou a sua última publicação, onde faleceu e onde os seus restos mortais estiveram sepultados até a sua trasladação em 1964.

Quando Florbela Espanca, já separada do seu primeiro esposo, vivia uma relação amorosa com António Guimarães, alferes miliciano da Guarda Nacional Republicana, que viria a ser o seu segundo marido, pretendeu vir viver para junto dele, uma vez que este havia sido colocado no Destacamento de Artilharia do Porto, no Castelo da Foz do Douro. Numa das suas cartas, para o seu “adorado Toninho”, como assim o tratava, escreveu: “Não sei o que esperas para alugar casa. Dizes que a questão é ir, pois te digo que a questão é ter um buraco por modesto que seja. Palácio ou tenda na praia, o que preciso é casa minha.”.

Acabaram por fixar, em agosto de 1920, residência na rua do Godinho 146, em Matosinhos. Só mais tarde, Janeiro de 1921, foram morar para o Castelo da Foz do Douro.

Última fotografia de Florbela Espanca (reproduzida 
de um livro) tirada em Évora no verão de 1930

Depois de ter casado com Guimarães, em 03 de Julho de 1921 e dele se ter separado mais tarde, iniciou uma relação amorosa com Mário Lage, médico de Matosinhos, que diziam ser um “bom samaritano” que outra coisa não teria feito senão dar-lhe firmeza e conforto na sua vida.. Lage foi tenente médico do mesmo Destacamento de Artilharia do Porto, da G.N.R.., no Castelo da Foz, de Julho de 1920 a Fevereiro de 1922, data a partir da qual passou a exercer as funções de sub delegado de saúde de Matosinhos.


Florbela padecia de várias complicações de saúde, tendo sido este médico a tratá-la. O que os terá aproximado e que os levou a apaixonarem-se um pelo outro.

Contraiu matrimónio com Mário Lage, na Igreja de Matosinhos em Outubro de 1925 ( e não em Dezembro, como por lapso referi no texto que aqui postei, sobre Florbela, em 01/01/2012). Passaram a morar na casa de família do médico, na rua 1.º de Dezembro, 540, em Matosinhos. E é aqui que encontra finalmente um lar onde todos a tratam bem, todos lhe procuram dar consolo para os seus males tamanhos do corpo e da alma, como relata Maria Alexandrina no livro A vida ignorada de Florbela Espanca, edição da autora em 1965. Refere ainda nessa publicação que Florbela “passa as tardes deitada na areia doirada olhando o mar inquieto e que ela admirava tanto e é ali, entre o verde das águas e o azul do céu, que confidencia a Guido Bottelli (um amigo italiano que a ajuda na tentativa de apressar a edição daquela que terá sido a sua última obra “Charneca em Flor”) os seus tormentos de menina, as suas desilusões de adolescente e a sua ventura chegada quando é já mulher experimentada de tantas dores…”
                                                                                                                                                           
Casa onde viveu e morreu Florbela Espanca 
             
Escreveu José Carlos Fernández, no seu livro Florbela Espanca, A Vida e a Alma de uma Poetisa, edição Nova Acrópole, em Fevereiro de 2011, que numa festa celebrada no Hotel do Porto, no final do verão de 1930, uma amiga de Florbela apresenta-lhe o advogado Ângelo César, do Porto e juntos iniciam um romance. “A poetisa está de novo apaixonada”, refere Fernández. Mais diz que a poetisa terá oferecido a César, uma aguarela, da autoria de seu irmão Apeles, já falecido, e dois sonetos, “Quem sabe…” e “Trazes-me em tuas mãos de vitorioso”, que dedicou a este novo amor.

Não chega a ver publicado o seu último livro. Depois da prolongada doença se intensificar e a reter em casa, vem a falecer na madrugada do dia 08 de Dezembro de 1930.

Ter-se-á suicidado porque lhe foram encontrados, debaixo do colchão, dois frascos vazios de “Veronal”, sonífero que tomava regularmente. A certidão de óbito é assinada por um carpinteiro!, com a causa da morte “edema pulmonar”. Para que ninguém da profissão médica se visse implicado em mascarar o tipo de morte, escreveu Carlos Fernández. Mário Lage, o marido, num telegrama urgente que enviou, dando conta da sua morte, escreveu laconicamente “morreu Florbela Lage”.

Depois das exéquias fúnebres, foi a sepultar no cemitério de Sendim, em Matosinhos. Mais tarde, em 17 de Maio de 1964, foram os seus restos mortais trasladados para a sua terra natal em Vila Viçosa.

Escultura da autoria de Irene Vilar.
 QUEM NOS DEU ASAS PARA ANDAR DE RASTOS?
QUEM NOS DEU OLHOS PARA VER OS ASTROS
- SEM NOS DAR BRAÇOS PARA OS ALCANÇAR?
FLORBELA ESPANCA

Para além da escultura (máscara) da autoria da saudosa escultora Irene Vilar, patente num pequeno jardim na confluência das ruas, Tomás Ribeiro e Ló Ferreira, Florbela Espanca tem perpetuado o seu nome na toponímia da cidade e na Biblioteca Municipal de Matosinhos. Também a Universidade Sénior desta cidade adoptou o seu nome.

Florbela Espanca que num dos seus poemas, cantado por Luís Represas, no tema “Perdidamente” escreveu:

“ser Poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens!”

Morreu muito jovem. E só mais tarde lhe foi reconhecida a verdadeira grandeza que tem e merece.

Agostinho Barbosa Pereira


domingo, 5 de fevereiro de 2012

D. Miguel da Silva – o dono da Foz


Depois de dez anos de vivência em Roma, como embaixador do rei de Portugal, onde se tornou íntimo dos papas Médicis, D. Miguel da Silva regressou ao seu país, onde foi nomeado bispo de Viseu pelo rei D. João III, cargo que desempenhou até 1540, altura em que fugiu para Roma, fuga considerada pelo rei como de alta traição.

Quadro "Cristo em casa de Marta", da autoria do pintor Grão Vasco ,encomendado pelo bispo de Viseu D. Miguel da Silva, no qual, segundo consta, o próprio bispo se fez retratar (rosto rodeado por um círculo). Esta obra está patente no Museu Grão Vasco em Viseu.

No período em que viveu inicialmente em Roma, entre 1515 e 1525, integrou-se perfeitamente na vida romana e criou grande amizade com importantes figuras da época, nomeadamente com o artista Miguel Ângelo. Humanista e poeta, tornou-se uma figura de primeiro plano na cultura e na política.

Na chegada a Portugal em 1525, com os benefícios eclesiásticos que lhe haviam sido concedidos pelo papa, como o Mosteiro de Santo Tirso, muito cobiçado à época por outros homens da igreja e ao qual pertencia o Couto de S. João da Foz do Douro, fixou-se nesta freguesia lançando-se numa verdadeira campanha de obras, algumas delas bem importantes. Pode dizer-se que D. Miguel da Silva beneficiou e muito a Foz do Douro e o seu progresso.

Segundo descrição, à entrada do Douro alinhavam-se colunas de granito a meio do rio indicando o enfiamento da barra. Uma igreja de enorme cúpula avançava água dentro com fachada voltada para o mar. Mais adiante um torreão abobadado a servir de capela farol (ver artigo sobre a capela farol de S. Miguel o Anjo) ambas traçadas no mais puro estilo da Renascença italiana. Todo este aparatoso conjunto foi erguido, após 1527, por ordem do abade de Santo Tirso e bispo de Viseu, D. Miguel da Silva, pelo seu arquitecto privativo, o italiano Francisco de Cremona. Diz-se que no vasto programa de restauração da Foz do Douro fundia-se o universo mental do renascimento com o novo mundo aberto pelos descobrimentos.

Em 1567 a corte mandou rodear a igreja com muralhas, criando-se assim o Forte de S. João Baptista da Foz do Douro, vulgo Castelo da Foz do Douro.

O Forte de S. João Baptista. Foto do óleo do pintor Artur Loureiro nos anos vinte do séc. XX. 

Mais tarde, em 1647, após um estudo do engenheiro-mor Lassart, foi destruído o conventinho beneditino, onde havia residido D. Miguel da Silva até 1540 e demolidas as abobadas e frente da fachada principal da igreja, cujo interior passou a ser o pátio da fortaleza.

A igreja da Foz do Douro foi então construída no local onde actualmente se encontra. Consta que o rei D. João III terá doado do seu bolso seis mil cruzados para a construção da actual igreja, com a condição de poder demolir a existente dentro do castelo.

Da anterior igreja resta a nave que em foto se reproduz.

Nave, ainda existente, da antiga igreja da Foz do Douro

D. Miguel da Silva, destituído da nacionalidade portuguesa, pelo rei e dos poderes eclesiásticos que lhe haviam sido concedidos depois da fuga para Roma, ascendeu à dignidade cardinalícia em 2 de Dezembro de 1541, mas o vento da fortuna virou. De bispo rico tornou-se cardeal pobre, ficando dependente da generosidade do papa, recorrendo mesmo à colónia judaica para sobreviver. Mas nunca perdeu a fama de grande humanista, nem de escritor.

(Fonte: Revista Oceanos, da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses – Junho de 1989)

Agostinho Barbosa Pereira

sábado, 7 de janeiro de 2012

Capela Farol de S. Miguel o Anjo


Exemplar arquitectónico que se julga único, datado do século XVI, mais precisamente de 1538, ano em que foi concluído, situa-se na marginal da Foz do Douro, na Cantareira.

Mandada edificar pelo benemérito Bispo Eleito de Viseu, D. Miguel da Silva, ao tempo Senhor do Couto e Vila de S. João da Foz, homem muito interessado pela navegação do rio Douro, a Capela Farol de S. Miguel o Anjo tinha a função de iluminar e abençoar, nos perigos, a passagem das embarcações. A sua luz, implantada no tecto exterior, terá salvo muitas vidas por entre os baixos rochedos da Barra do rio Douro.

É exteriormente uma torre quadrangular, que tem do lado da terra um pequeno pátio com grades de granito, que serviam de assentos. Interiormente é octogonal, com três nichos na parede virada ao rio. Julga-se que duas imagens de Santos ladeavam outrora o minúsculo altar central.

Numa inscrição da fachada pode ler-se SALVOS IRE RD (peço a Deus que passem sãos e salvos) SALVOS IRE RIOGOI DIEUM.

Em 17 de Abril de 1950, esta capela foi declarada imóvel de interesse público.

Nesta gravura de 1790 pode ver-se a Capela Farol de S. Miguel o Anjo


Por uma desgraçada inspiração, segundo Magalhães Basto num artigo escrito no extinto jornal O Primeiro de Janeiro, a 24 de Outubro de 1941, veio a ser construída junto à capela, uma alta torre do telégrafo comercial e a casa da (também extinta) Guarda Fiscal. A esta, digamos, aberrante construção, também se referiu o Professor Padre Xavier Coutinho (eminente figura que tive a honra de conhecer, conversar e acompanhar há uns anos atrás, numa visita aquele importante imóvel) no seu livro “A Torre da Marca e outras Balizas, editado no Porto em 1965.

De facto, um monumento ímpar da Foz do Douro e provavelmente da península, dado que é considerada a capela farol mais antiga da Ibéria, permanece abandonada com a agravante de ter servido de pilar de apoio às construções que a ela encostaram e que agora se encontram desactivadas. Bem poderiam ceder à secular capela o espaço e a vista que, estamos certos, a transformarão no ex-libris desta terra que amamos (opinião, com a qual comungo inteiramente, do meu companheiro e amigo Joaquim Pinto da Silva, no seu livro “A Cantareira” editado em 1991, pela Associação O Progresso da Foz, entidade da qual fomos ambos fundadores).

Vista do cais do Marégrafo com a torre do antigo telégrafo e a casa da extinta Guarda Fiscal que quase escondem a Capela Farol de S. Miguel o Anjo


Resta-me deixar aqui uma informação, para quem não sabe, que reputo de importante. Sendo a Foz do Douro a única freguesia do Porto que até 2002 não possuía símbolos heráldicos, a Junta de Freguesia nomeou uma comissão, nesse ano e à qual tive a honra de pertencer, para o estudo e apresentação do brasão e bandeira da Foz do Douro.

Nesse brasão, que aqui reproduzo, está representada a Capela Farol de São Miguel o Anjo por proposta minha, que mereceu o apoio unânime dos restantes membros da comissão.

Reprodução da parte central da bandeira da Foz do Douro. O brasão é encimado por quatro torres, dado que a freguesia tem foral e, como tal, é equiparada a Vila.


A importância deste monumento está assim patente nos símbolos heráldicos da Foz do Douro para a posteridade.



Agostinho Barbosa Pereira

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A Batalha das flores na Foz do Douro





No início do sec. XX, eram frequentes as batalhas das flores por vários locais do país, normalmente inseridas no programa de quaisquer festas ou iniciativas públicas.

No seu livro RECORDANDO O VELHO PORTO, editado em 1963, o Brigadeiro Nunes da Ponte conta-nos como foi uma dessas festas, ocorrida no Passeio Alegre, à Foz do Douro, em 08 de Junho de 1902.

Desconhece-se a data do postal reproduzido mas crê-se que se trata de uma das imagens mais antigas do Jardim do Passeio Alegre, inaugurado em 1888, cujas obras só ficaram totalmente concluídas em 1892. 

Esta batalha de flores realizou-se no âmbito da iniciativa da comissão para o monumento a Almeida Garrett.

Podemos avaliar o êxito de tal iniciativa, quando o autor refere que a população da cidade, nesse dia, tinha “emigrado” para a Foz do Douro. Parecia um povo em êxodo, escreveu. Terá sido uma das melhores batalhas das flores até então realizada, segundo os jornais que a noticiaram.

(Foto do desfile de carros eléctricos realizado em 2014)
Os americanos, eléctrico puxado por dois cavalos, (conforme a foto à esquerda) partiram de diversos pontos chegando ao local do desfile a abarrotarem de gente, esmagada, comprimida e resignada.

O jardim do Passeio Alegre foi vedado com arame a toda a volta e as bancadas encostadas ao paredão da Meia Laranja.

No Jornal de Notícias, ao descrever a festa, dizia-se que não podia ser mais selecta, nem mais escolhida, a gente que enchia completamente as bancadas, porque lá se encontrava a primeira sociedade do Porto.

O Grupo Liberal Beneficente, importante instituição de caridade à época na Foz do Douro, colheu larga receita com o produto da venda de flores, serpentinas, confétis, etc. Além disso os vendedores ambulantes fizeram também grande negócio, por exemplo, na venda de rebuçados de avenca que esgotaram.

A cada passo se ouvia o estalar das molas dos kodaks de fotógrafos amadores destacando-se entre eles o conhecido Aurélio Paz dos Reis.

Às cinco horas da tarde teve início o desfile do majestoso cortejo, com os sons de uma salva de vinte e um tiros, clarins, tambores e os acordes do hino nacional executado por bandas regimentais participantes.

Dois arautos, vestindo gibões de veludo, montados a cavalo e empunhando clarins abriam o cortejo.

Seguiam-se os ciclistas, (reproduzo à direita a única imagem publicada no livro, de um ciclista participante) numerosos carros e por fim uma força a cavalo.

Os diversos carros alegóricos, conforme refere o cronista, muito bem engalanados, transportavam as senhoras da elite portuense. Destacava-se contudo uma carruagem muito singela do Grupo Diplomático da Foz do Douro, na qual seguiam muitas criancinhas.

Saliente-se que o cortejo era também participado por um único automóvel, dado que poucos existiam ainda na cidade.

A Tipografia Ocidental havia instalado uma máquina para impressão de um pequeno jornal Última Hora que foi largamente vendido a vinte reis o exemplar.

O entusiasmo era enorme. Jogavam-se flores entre as tribunas e a pista numa verdadeira batalha.
                                                       
No final, o júri atribuiu diversos prémios aos participantes mais criativos, destacando-se, o prémio da cidade, o do comércio, o das senhoras, o do Ateneu Comercial e o de Almeida Garrett.

Finda a batalha das flores ainda muita gente se manteve pela Foz do Douro. Muitos foram jantar ao Hotel Boavista. Outros foram passear, até cerca das vinte e uma horas para Carreiros, hoje Avenida do Brasil.

Agostinho Barbosa Pereira


Vista actual do interior do jardim do Passeio Alegre

    







domingo, 1 de janeiro de 2012

Figuras e imagens da Foz do Douro de outrora

Nestes interessantes postais antigos podemos apreciar dois rostos de anónimos da Foz do Douro de outrora.

O primeiro, trata-se da imagem de um pescador consertando as redes da pesca, no tempo em que esta freguesia ainda tinha grande actividade piscatória.

Não consta a data da sua edição, pela Union Postale Universelle, mas este exemplar possui um manuscrito datado de 14/08/1903.


O segundo, também editado pela Union Postale Universelle e sem qualquer referência à data, é do rosto de uma peixeira que para nós fozenses lembra-nos alguém que conhecemos. Rosto marcado pelos anos mas que nos é, diria, familiar. E porquê uma foto de uma das peixeiras da Foz do Douro, editada em postal? Não seria certamente colecção de postais de actividades profissionais. Mas um rosto que motivou o interesse em mostrar e divulgar, julgo, pela editora.



O terceiro. editado por Emílio Biel & C.ª, apresenta-nos imagem do Passeio Alegre, já depois de construído o jardim com o mesmo nome, onde se pode ver, na zona da Cantareira, a estrutura que servia de suporte para o conserto das redes de pesca pelos pescadores fozeiros.














Agostinho Barbosa Pereira 

Florbela Espanca




Florbela Espanca nasceu a 08 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa no Alentejo e faleceu, de suicídio por sobre dose de barbitúricos, precisamente no dia do seu 36.º aniversário, em 08 de Dezembro de 1930, em Matosinhos.

Apesar de uma vida curta legou-nos um importante património literário.

Por volta de 1920, já a viver com o homem que iria ser o seu segundo marido, António José Marques Guimarães, alferes miliciano de artilharia C da Guarda Nacional Republicana, veio de Matosinhos para a Foz, residir no Forte de S. João Batista da Foz do Douro, vulgo Castelo da Foz.

Contraiu matrimónio, após o divórcio de Alberto Monteiro, no posto do Registo Civil da Foz do Douro em 03 de Julho de 1921.





Entrada do Forte de S. João Batista da Foz do Douro


No seu quarto, naquele edifício militar, com janela virada para o mar, escreveu um dos seus conhecidos poemas, integrado na publicação “Livro de Sóror Saudade”, intitulado



                                                          Da minha janela

                                      Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
                                      Num soluçar aflito, murmurado...
                                      Vôo de gaivotas, leve, imaculado,


                                      Como neves nos píncaros nascidas!

                                      Sol! Ave a tombar, asas já feridas,
                                      Batendo ainda num arfar pausado...
                                      Ó meu doce poente torturado
                                      Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!

                                     Meu verso de Samain cheio de graça,
                                     Inda não és clarão já és luar
                                     Como um branco lilás que se desfaça!

                                     Amor! Teu coração trago-o no peito...
                                     Pulsa dentro de mim como este mar
                                     Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!...




                                    

Foi no Castelo da Foz, durante uma festa, que veio a conhecer o seu terceiro marido, Doutor Manuel Lage, subdelegado de saúde Matosinhos, cidade a onde regressou para casar religiosamente, em 08 de Dezembro de 1925, na Igreja do Bom Jesus e na qual viveu até à data do seu falecimento.

Mas foi António Guimarães o grande amor da sua vida. Dos muitos escritos que lhe dedicou, reproduzidos no livro “Perdidamente, correspondência amorosa 1020-1925” editado pela Câmara Municipal de Matosinhos, destaco este:

“Os nossos mimos, a nossa intensidade, as nossas carícias são só nossas; no nosso amor não há cansaços, não há fastios, meu pequenino adorado! Como o meu desequilibrado e inconstante coração d´artista se prende a ti”


Vista actual da entrada do Castelo da Foz


Agostinho Barbosa Pereira

Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

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