Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

domingo, 12 de agosto de 2012

Florbela Espanca e Matosinhos


Florbela Espanca assume para Matosinhos elevada importância por vários factores dos quais destaco: Foi a cidade do norte do país, para onde veio residir com o segundo marido. Foi também nesta cidade que casou pela terceira vez (e a primeira religiosamente) e foi ainda a cidade onde preparou a sua última publicação, onde faleceu e onde os seus restos mortais estiveram sepultados até a sua trasladação em 1964.

Quando Florbela Espanca, já separada do seu primeiro esposo, vivia uma relação amorosa com António Guimarães, alferes miliciano da Guarda Nacional Republicana, que viria a ser o seu segundo marido, pretendeu vir viver para junto dele, uma vez que este havia sido colocado no Destacamento de Artilharia do Porto, no Castelo da Foz do Douro. Numa das suas cartas, para o seu “adorado Toninho”, como assim o tratava, escreveu: “Não sei o que esperas para alugar casa. Dizes que a questão é ir, pois te digo que a questão é ter um buraco por modesto que seja. Palácio ou tenda na praia, o que preciso é casa minha.”.

Acabaram por fixar, em agosto de 1920, residência na rua do Godinho 146, em Matosinhos. Só mais tarde, Janeiro de 1921, foram morar para o Castelo da Foz do Douro.

Última fotografia de Florbela Espanca (reproduzida 
de um livro) tirada em Évora no verão de 1930

Depois de ter casado com Guimarães, em 03 de Julho de 1921 e dele se ter separado mais tarde, iniciou uma relação amorosa com Mário Lage, médico de Matosinhos, que diziam ser um “bom samaritano” que outra coisa não teria feito senão dar-lhe firmeza e conforto na sua vida.. Lage foi tenente médico do mesmo Destacamento de Artilharia do Porto, da G.N.R.., no Castelo da Foz, de Julho de 1920 a Fevereiro de 1922, data a partir da qual passou a exercer as funções de sub delegado de saúde de Matosinhos.


Florbela padecia de várias complicações de saúde, tendo sido este médico a tratá-la. O que os terá aproximado e que os levou a apaixonarem-se um pelo outro.

Contraiu matrimónio com Mário Lage, na Igreja de Matosinhos em Outubro de 1925 ( e não em Dezembro, como por lapso referi no texto que aqui postei, sobre Florbela, em 01/01/2012). Passaram a morar na casa de família do médico, na rua 1.º de Dezembro, 540, em Matosinhos. E é aqui que encontra finalmente um lar onde todos a tratam bem, todos lhe procuram dar consolo para os seus males tamanhos do corpo e da alma, como relata Maria Alexandrina no livro A vida ignorada de Florbela Espanca, edição da autora em 1965. Refere ainda nessa publicação que Florbela “passa as tardes deitada na areia doirada olhando o mar inquieto e que ela admirava tanto e é ali, entre o verde das águas e o azul do céu, que confidencia a Guido Bottelli (um amigo italiano que a ajuda na tentativa de apressar a edição daquela que terá sido a sua última obra “Charneca em Flor”) os seus tormentos de menina, as suas desilusões de adolescente e a sua ventura chegada quando é já mulher experimentada de tantas dores…”
                                                                                                                                                           
Casa onde viveu e morreu Florbela Espanca 
             
Escreveu José Carlos Fernández, no seu livro Florbela Espanca, A Vida e a Alma de uma Poetisa, edição Nova Acrópole, em Fevereiro de 2011, que numa festa celebrada no Hotel do Porto, no final do verão de 1930, uma amiga de Florbela apresenta-lhe o advogado Ângelo César, do Porto e juntos iniciam um romance. “A poetisa está de novo apaixonada”, refere Fernández. Mais diz que a poetisa terá oferecido a César, uma aguarela, da autoria de seu irmão Apeles, já falecido, e dois sonetos, “Quem sabe…” e “Trazes-me em tuas mãos de vitorioso”, que dedicou a este novo amor.

Não chega a ver publicado o seu último livro. Depois da prolongada doença se intensificar e a reter em casa, vem a falecer na madrugada do dia 08 de Dezembro de 1930.

Ter-se-á suicidado porque lhe foram encontrados, debaixo do colchão, dois frascos vazios de “Veronal”, sonífero que tomava regularmente. A certidão de óbito é assinada por um carpinteiro!, com a causa da morte “edema pulmonar”. Para que ninguém da profissão médica se visse implicado em mascarar o tipo de morte, escreveu Carlos Fernández. Mário Lage, o marido, num telegrama urgente que enviou, dando conta da sua morte, escreveu laconicamente “morreu Florbela Lage”.

Depois das exéquias fúnebres, foi a sepultar no cemitério de Sendim, em Matosinhos. Mais tarde, em 17 de Maio de 1964, foram os seus restos mortais trasladados para a sua terra natal em Vila Viçosa.

Escultura da autoria de Irene Vilar.
 QUEM NOS DEU ASAS PARA ANDAR DE RASTOS?
QUEM NOS DEU OLHOS PARA VER OS ASTROS
- SEM NOS DAR BRAÇOS PARA OS ALCANÇAR?
FLORBELA ESPANCA

Para além da escultura (máscara) da autoria da saudosa escultora Irene Vilar, patente num pequeno jardim na confluência das ruas, Tomás Ribeiro e Ló Ferreira, Florbela Espanca tem perpetuado o seu nome na toponímia da cidade e na Biblioteca Municipal de Matosinhos. Também a Universidade Sénior desta cidade adoptou o seu nome.

Florbela Espanca que num dos seus poemas, cantado por Luís Represas, no tema “Perdidamente” escreveu:

“ser Poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens!”

Morreu muito jovem. E só mais tarde lhe foi reconhecida a verdadeira grandeza que tem e merece.

Agostinho Barbosa Pereira


6 comentários:

  1. Sr Agostinho há horas que estou lendo o seu blog na companhia da bela melodia de fundo. Todos os textos que até agora li, são lições de vida e para a vida de quem as lê.
    Amo Florbela Espanca! Concordo com o seu desabafo, “Morreu muito jovem. E só mais tarde lhe foi reconhecida a verdadeira grandeza que tem e merece”. Mas tenho que acrescentar que me sinto profundamente triste por ter a noção de ela ainda ser desconhecida para muitos portugueses. Foi com o propósito de a manter viva que criei uma página no facebook, Recordar Florbela Espanca. O seu blog vai fazer parte da minha leitura diária.
    Os meus cumprimentos.

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  2. Boa noite. Antes de mais peço desculpa de só agora comentar a mensagem que me deixou e que agradeço, mas venho poucas vezes aqui. Talvez porque seja mais presente no facebook. Porém sou um preguiçoso para escrever, daí que poucos textos tenha produzido neste espaço, apesar de por norma serem curtos, mas a ideia foi a de não me tornar maçador para com os leitores.Gostaria de saber a quem estou a escrever, mas está como anónimo, o que respeito naturalmente. Agradeço as suas estimulantes palavras. E gostava de conhecer a página que criou. Vou pois procurá-la e terei muito gosto em visitá-la assiduamente porque sou fã de Espanca. Os meus cumprimentos também para si. Bem haja.

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  3. Menino eu amei conhecer um pouco da história dessa poetisa fantástica, agradeço-te por ter-me apresentado a esta deusa das letras. Beijos

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  4. Não tem que agradecer amiga.É para mim uma satisfação que tenha gostado. Muito haveria a dizer mas o objectivo é falar um pouco pela passagem dessa extraordinária mulher e poetisa pela Foz do Douro (onde nasci) e Matosinhos (onde moro). Beijinhos..

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  5. Muito grato por este texto tão importante sobre uma poeta amada e querida por mim. Muitas informações que eu não sabia, muitas coisas relevantes, parabéns pelo texto.

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  6. Boa noite sr. Agostinho. Obrigada pelo texto, é simples e esclarecedor. Não tem mais informações acerca do 3 marido, o Dr.Mário Pereira Lage? é que na minha familia consta uma historia antiga de um médico exatamente com esse nome que cuidou do meu avô. E a minha familia é dos arredores de Matosinhos. Grata pela partilha. Márcia Jesus

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Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

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