Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Resumida história de um movimento na Foz do Douro, há cerca de 41 anos, no qual participei com o escritor António Rebordão Navarro e outros.


A minha convivência com António Rebordão Navarro começou, nos inícios dos anos setenta, no café Moreira, à rua Senhora da Luz, ainda que o conhecesse muito tempo antes.

Ele era um frequentador assíduo daquele café, muitas vezes acompanhado da esposa, saudosa Virgínia, uma das três filhas do senhor Adrião que morava na rua de S. Bartolomeu, julgo.

Acabei por fazer parte de uma “tertúlia” que tinha lugar, de quando em vez, em casa do Pimentel, na rua de Cândida Sá de Albergaria, onde, para além de Navarro, se juntavam; o Branco, médico psiquiatra que vivia da rua do Faial; o meu amigo e companheiro Júlio Amorim (já há muito falecido) e outros, dos quais já não me ocorrem os nomes.

Após a revolução de abril começaram a surgir em algumas freguesias do Porto movimentos com vista à “tomada” das juntas de freguesia com a intenção de as colocar democraticamente ao serviço das populações. No caso de Ramalde, soube-se que o grupo, liderado por um homem chamado Reis, tomou a junta de freguesia de assalto instalando-se com funções executivas, lugares e pelouros distribuídos.

Edifício da sede da Junta de Freguesia da Foz do Douro
Também na Foz do Douro se criou um grupo, com objectivo idêntico, encabeçado por António Rebordão Navarro, composto pelos já citados: Branco, Pimentel, Júlio Amorim e eu. Por convite de Navarro também se juntou a este grupo Joaquim Picarote (há muito falecido) que vivia na rua do Farol e havia sido um entusiasta de várias iniciativas na Foz, nomeadamente os cortejos do traje de papel integrados nas festas a S. Bartolomeu, nesta freguesia.

Porem, a ideia de Rebordão Navarro, com a qual todos concordamos, não era a de se tomar a junta por assalto, mas legitimados através da assinatura de residentes na freguesia. E assim, cada um fez circular exemplares de papel azul de vinte e cinco linhas para a recolha de assinaturas. Não posso precisar quantas assinaturas colhemos, mas recordo-me que o volume de folhas era grande. Foram certamente milhares. O seguinte passo foi o da entrega no antigo governo civil do Porto, do abaixo assinado. Solicitada a audiência viemos a ser recebidos, não pelo governador, visto que não havia ainda sido nomeado pelo governo provisório, mas pelo secretário, Januário Nunes, a quem estava cometida, por lei, a função de substituição e que foi muito atencioso para o com o nosso grupo, mas apenas se limitou a ouvir-nos e a receber os papéis, com a promessa de que os entregaria ao próximo governador. Informou-nos que não dispunha de poderes para nomear qualquer comissão administrativa nas juntas de freguesia.

Algum tempo depois tive a oportunidade de conversar com Mário Cal Brandão, que estava indicado e veio a tomar posse, em setembro de 1974, como governador civil do Porto, a quem dei conhecimento das nossas diligências na intenção de gerirmos a Junta de Freguesia da Foz do Douro democraticamente. Contudo este informou-me que sabia da intenção do governo em instruir os novos governadores para que nomeassem um representante de cada partido (PCP/PS/PSD) nas freguesias com vista à constituição de comissões administrativas até às eleições autárquicas. Assim veio a acontecer, com excepção de Ramalde onde permaneceu nomeado o grupo, a que já me referi, até às eleições autárquicas que se realizaram em finais de 1976.

Gorou-se assim a ideia do nosso movimento, encabeçado por António Rebordão Navarro e criado especificamente para a democratização da autarquia local, que permanecia com um executivo cujo presidente tinha mais de vinte anos de mandato e que se chamava Álvaro Gomes.

Rebordão Navarro era nessa altura militante do MDP/CDE. Em eleição autárquica posterior chegou a candidatar-se à Junta de Freguesia da Foz do Douro pela CDU, mas acabou por renunciar ao lugar.

Tudo isto aconteceu antes de eu iniciar funções, após concurso, na junta de freguesia da Foz do Douro, onde trabalhei vinte e oito anos. Resta-me dizer que durante os anos em que trabalhei na junta de freguesia e em acções da associação “O Progresso da Foz” da qual fui fundador e dirigente, do Orfeão da Foz do Douro, onde exerci o cargo de presidente da Direcção durante doze anos ou de outras actividades em que tomei parte, como a feira de artesanato da Foz do Douro, tive muitos contactos com António Rebordão Navarro com quem tive sempre a melhor relação, apesar da crítica (justa) que me fez, numa das crónicas que escreveu no Jornal de Notícias, por, enquanto responsável pela exposição retrospectiva de S. Bartolomeu, que realizei no Castelo da Foz em agosto de 1991, ter omitido uma das realizações que ele Rebordão Navarro havia levado a efeito, em meados dos anos oitenta, enquadrada nas festas a S. Bartolomeu e designada “Jogos Florais”. Mas isso não provocou qualquer problema entre nós, apresentadas que foram as desculpas.

António Rebordão Navarro deixou-me (e certamente a muitos que privaram com ele)  saudades, não só no aspecto pessoal, como no literário. Ainda que este, nas muitas obras que nos legou, permaneça vivo para sempre.

Agostinho Barbosa Pereira - 30 de Maio de 2015.





António Rebordão Navarro, poeta e ficcionista, nasceu na Foz do Douro a 1 de Agosto de 1933. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu advocacia no Porto. Secretariou e dirigiu a revista literária Bandarra, fundada por seu pai, o escritor Augusto Navarro. Foi co-director da revista de poesia Notícias do Bloqueio, e em 1975 dirigiu a Biblioteca Pública Municipal do Porto. Depois da poesia, estreou-se com As Três Meninas e Outros Poemas (1952), a que se seguiram O Mundo Completo (1955), Os Animais Humildes (1956), Aqui e agora (1961) e 27 Poemas (1988) — enveredou pela ficção narrativa a partir de Romagem a Creta (1964). Com Um Infinito Silêncio (1970) obteve o Prémio Alves Redol e ao seu romance Mesopotâmia (1984) foi atribuído o Prémio Internacional Miguel Torga. Publicou, ainda, o romance O Parque dos Lagartos (1982). O seu livro A Praça de Liége (1988) foi distinguido com o Prémio Literário Círculo de Leitores.
Imagem da praça de Liége num postal editado nos inícios do séc. XX
Publicou ainda, entre outras obras, a antologia Poetas Escolhem Poetas (1992).

Faleceu a 22 de abril de 2015, na sua casa, sita à rua do Passeio Alegre, na Foz do Douro.

Para a cooperativa Sociedade Portuguesa de Autores, a quem António Rebordão Navarro havia doado a sua casa em 2010, este "foi uma figura sempre activa na vida cultural e cívica do Porto", tendo esta entidade criado um prémio literário com o seu nome.

Casa onde viveu e morreu o escritor Rebordão Navarro, na rua do Passeio Alegre, frente ao jardim.


As Mulheres da Cantareira

Naturalmente, antes de as manhãs 
pegarem fogo a todas as palmeiras, 
gastaram elas os perfumes nas rochas,
levaram os seus seios para as ondas, 
lavaram os sexos no rio,
lavraram os limos com os lábios.
Anteriores às gaivotas,
desenharam o seu voo nas águas,
descrevendo na areia
o coleante deambular dos vermes,
vendidos no termo das semanas
aos amantes da pesca.
Virtualmente, antes de o inverno
lhes mudar o semblante,
comer à sua mesa e violá-las,
elas eram só música,
trazendo, levando, conduzindo
todos os barcos pelo mar do seu corpo.
Mais antigas que os ventos e a paisagem, 
muitas vezes fizeram de sereias, 
de estrelas breves consumidas 
em vinho ou em cerveja, 
outras de frio aço e aguardente, 
alguns momentos de tabaco loiro.
(São putas? São fidalgas? São senhoras? 
Netas bastardas de Raul Brandão?)
Meigas, transparentes, adejantes, 
antes de os elementos 
cismarem em criá-las, 
já elas eram feitas 
como deusas cumpridas 
em fumo, mito e névoa.
Como estátuas fenícias? 
Como estátuas.

(ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO)

Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

Seguidores