Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

sábado, 3 de junho de 2017

Alguns apontamentos sobre Ramalho Ortigão, escritor (1836 – 1915).

A batota (jogo de cartas), na Foz do Douro, há cerca de 155 anos atrás

Sob o título “Uma das jogatinas” escreveu, em novembro de 1882, Ramalho Ortigão, que tinha participado, pela derradeira vez, cerca de vinte anos antes, numa batota em São João da Foz.
A espelunca, como a intitulou, funcionava na Assembleia do Mallen, na Praia dos Ingleses, com um terraço sobre o mar e com entrada pela rua da Senhora da Luz.

Desenho, assinado por JPedrozo, está publicado no livro As Praias de Portugal, da autoria de Ramalho Ortigão, com a indicação de que se trata da Praia dos Ingleses.
Referiu ainda que o jogo estava armado sobre uma vasta mesa forrada a pano verde, iluminada por um candeeiro de tecto no meio do grande salão de baile.
Em torno da mesa encontravam-se homens da melhor sociedade do Porto e da província do Douro e do Minho, a banhos na Foz, que formavam, entre os sentados e os de pé por detrás destes, três ou quatro círculos concêntricos.
A regra do jogo, descreveu-a assim: “Tiravam-se do baralho duas cartas que um dos homens, ao serviço da casa, colocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por sinal, o três de espadas a um lado e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, para apostar por ela, a carta que queria e colocava-lhe ao lado o preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, segundo era um rei ou um terno de outro naipe a primeira dessas duas cartas que em seguida saía do baralho”.
O nosso escritor foi a jogo com mil reis (100$000) e perdeu-os. E acabou por jogar, até de manhã, todo o dinheiro que possuía naquela noite. E não seria pouco, pois, segundo relatou, tratava-se da importância que tinha recebido nesse dia, pela colaboração, durante meio ano, num jornal americano.
Porem afirmou que o jogo era uma asneira. E discordava do governo ao mandar castigar as asneiras em que cada um incorre. Evita-las ainda achava que se podia permitir.
E escreveu: “Se tivessem de ser presos todos aqueles que fazem asneiras o próprio governo seria uma coisa impossível porque há muito não haveria ministro nenhum que andasse solto.”

Ramalho Ortigão viveu em Carreiros.

Há quem diga que o escritor Ramalho Ortigão terá vivido na Foz do Douro. Tendo em conta um dos seus escritos, por volta de 1883, publicado no livro “As Farpas”, volume I, sob o título “AS PRAIAS, S. João da Foz – Como a gente se diverte – O homem jocoso – Banhos e banhistas”, viveu em Carreiros numa casa em frente ao paredão do quebra-mar, um pequeno porto de abrigo das lanchas de pesca em dias de mau tempo.

Molhe de Carreiros. Imagem certamente posterior à época a que se refere Ramalho Ortigão (1833)

Esse local faz parte da freguesia de Nevogilde que naquela altura estava ainda integrada no concelho de Bouças. Só mais tarde, em 1895, passou a pertencer ao concelho do Porto. Certamente que na altura, tal como ainda hoje, aquele local é muitas vezes designado como sendo Foz do Douro. Claro que poderá ter residido em outro local situado em S. João da Foz, mas nunca encontrei qualquer referência.
Alguns anos mais tarde um sobrinho do escritor, de nome Francisco Ramalho Ortigão, conhecido como R.O. F., pseudónimo que usava na sua mocidade para assinar, como jornalista, os seus artigos, viveu na rua do Alto de Vila, numa bela residência, segundo descreveu o Brigadeiro Nunes da Ponte no seu livro “Recordando o Velho Porto” (editado em 1963), casa onde explorou uma fábrica de tapetes que exibia nos seus jardins, para venda.
Caricatura de Francisco Ramalho Ortigão, da publicação Recordando o Velho Porto, da autoria do Brigadeiro Nunes da Ponte

Não se sabe onde se situava a casa mas presume-se que ficava na esquina com a rua de D. Miguel da Silva.
Este sobrinho do escritor, como bom cavaleiro que pelos vistos era, foi um dos organizadores do Centro Hípico do Porto.
Mas foi também um dos membros assíduos do Cube Rigollot, que reunia à porta da Farmácia Amorim, que outrora existiu na esplanada do Castelo, em frente ao Forte de São João Baptista, vulgo Castelo da Foz.
Francisco Ramalho Ortigão era contemporâneo e amigo do Brigadeiro Nunes da Ponte.

Voltando a Ramalho Ortigão, escritor, é interessante ler algumas das suas descrições a partir do local onde vivia.
Uma delas é a referência que fez sobre uma de rocha negra, áspera, duramente recortada como uma grande flor granítica, que sobressaia da superfície plana da cantaria do paredão do quebra-mar. Escreveu Ramalho Ortigão que reconhecia essa rocha com a mesma ternura saudosa como um velho móvel de família pelo facto de ali se ter sentado em criança, com o seu chapéu de palha e o seu bibe cheirando ao algodão novo azul e branco da fábrica do Bolhão.
Referindo-se também à bela estrada da Foz a Leça escreveu que por ali rodavam listradas com longas faixas de cores vivas, as carruagens americanas e no mastro da torre do farol na Senhora da Luz (referia-se ao Monte da Senhora da Luz no cimo da rua do Farol) flutuavam os galhardetes triangulares com os quais se emitiam sinais da terra para os navios.

Nesta imagem da avenida de Carreiros podemos ver, no meio das casas, mais elevado, o farol da Senhora da Luz e o mastro.

E que à beira da estrada as novas edificações se destacavam do fundo verde-negro dos pinhais que cobriam as colinas sobranceiras.
Depois de algumas considerações sobre a forma como eram tratados os muitos banhistas que ocorriam às praias para os banhos entre a barra e o molhe de Carreiros, na sua opinião com muitas falhas, descreveu como as pessoas utilizavam o seu tempo após os banhos.
Assim, durante o dia (depois das dez ou onze horas da manhã, quando findavam os banhos) as senhoras deixavam enxugar o cabelo e tocavam nos pianos a Marcha Turca de Mozart.
Ao fim da tarde passeavam-se na totalidade, aos encontrões, no Passeio Alegre.
Aos sábados à tarde saía menos gente à rua do que em outros dias.
Aos domingos saía toda a gente.
Às segundas feiras não saía ninguém.
E interrogava-se. Qual a razão deste fenómeno? Concluindo que ninguém o sabia.
A Foz, escreveu, sobredoura os seus encantos com a posse deste mistério insondável.

Agostinho Barbosa Pereira - junho de 2017.

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