Acerca de mim

Um pouco sobre mim

Nascido na Freguesia da Foz do Douro, Porto, berço da minha infância e juventude, mudei-me mais tarde para o "coração" da vizinha freguesia de Nevogilde, onde vivi alguns anos, freguesia que em tempos idos foi parte do concelho de Bouças (actualmente Matosinhos), considerada também como Foz, particularmente a sua frente marítima, destacada pelas avenidas do Brasil e de Montevideu, Após a reforma administrativa do Porto, S. Miguel de Nevogilde passou a fazer parte integrante da cidade e uma das suas quinze freguesias. Refiro o local onde vivi como "coração" da freguesia de Nevogilde, pelo destaque que o Largo (com o mesmo nome) merece, por ser o ponto principal de Nevogilde, largo que, tal como referiu em tempos o historiador Germano Silva, num artigo publicado no Jornal de Notícias: “é um dos raros recantos do Porto onde o urbanismo moderno não matou definitivamente o ambiente de ruralidade que por ali se respira”. Há mais de 30 anos fixei-me em Matosinhos, onde actualmente resido, próximo ao mar, mar esse que me viu nascer e sem o qual já não me habituava a viver. Gosto do seu barulho, do seu silêncio e do seu cheiro. Gosto de o sentir por perto e de caminhar junto a ele. Ele faz parte da minha vida.

domingo, 27 de agosto de 2017

Achegas para a história dos cortejos do traje de papel na Foz do Douro incluídos nas festividades a S. Bartolomeu.

Achei interessante que numa reportagem intitulada "Trajes de papel para o Porto apreciar e um banho de mar desfazer", datada do passado dia 24 do corrente do DN Lusa, o historiador Helder Pacheco, referindo-se, numa entrevista à Lusa, à tradição do traje de papel nas festas a S. Bartolomeu na Foz do Douro, ter dito que "um bairrista da Foz, Joaquim Picarote, auxiliado por um banheiro, decidiu criar, em 1940, uma nova tradição, um desfile em trajes de papel".


Esta afirmação contraria a ideia, errada, que por aí tem grassado nestes últimos anos, de que este cortejo se realiza há mais de cento e cinquenta anos! 


Aliás, ainda anteontem, na página 18 da edição do Jornal de Notícias, numa pequena notícia em que referia os 600 figurantes que este ano vão integrar aquele cortejo, o articulista rematava, escrevendo, que "o desfile já sai à rua há mais de 150 anos! Quem a escreveu não leu, provavelmente, o que o Professor Helder Pacheco disse. 


Mas esse mesmo jornal do Porto, no dia 26 de agosto de 1963, noticiava, sobre o cortejo realizado no dia anterior, que este foi "participado por cerca de 160 figurantes, retomando uma tradição, cuja origem era desconhecida e que tinha estado interrompida durante anos".


Este cortejo de 1963, sei bem, e sabe muita gente, foi organizado pelo saudoso Joaquim Picarote, o tal bairrista da Foz, a que se referiu o Professor Helder Pacheco.


Não sei em que se baseou aquele historiador para dizer que o início dos cortejos do traje de papel, ao que parece, únicos no mundo, ocorreu pelo ano de 1940. Não quero por em causa tal afirmação mas apenas dar uma achega, baseada em factos, a uma questão que é há muito colocada. Quando e como, na realidade, terão nascido os cortejos em questão? 

 
O facto de eu ter assumido a responsabilidade, enquanto membro do primeiro secretariado para a dinamização e realização, em 1991, das festas a S. Bartolomeu na Foz do Douro, promovidas, pela primeira vez, pela Junta de Freguesia, da primeira exposição retrospectiva dos cortejos do traje de papel, levou-me a descobrir, a partir do material fotográfico que me foi cedido na altura, parte dele por Joaquim Picarote, e em conversas que tive com pessoas da Foz do Douro que me deram alguns pormenores, muito sobre os cortejos, que até aí desconhecia.

A preparação do evento foi de muitos dias dias de imenso trabalho uma vez que grande parte das fotos não tinham indicação da data do cortejo correspondente. Estiveram ao dispor dos visitantes nessa altura, durante o período da exposição, inaugurada a 17 e patente até 25 de agosto no Castelo da Foz, para além de alguns trajes e adereços (como um barco, ainda que incompleto, que havia figurado no célebre cortejo alusivo ao vinho do Porto que encontrei acondicionado nos baixos da antiga Escola Primária n.º 85, ao Passeio Alegre) fotos de festejos de 1938, 1941, 1948 e 1954 e de cortejos de 1955, 1963, 1964, 1965, 1967 e 1968. Só em 1977 foi retomado, seguindo-se 1979, 1980, 1981, 1982, 1984, 1985, 1986, 1989 e 1990. Como se verifica, o desfile não teve regularidade anual.

Importante aqui referir que os cortejos de 1989 e 1990 foram realizados pela Academia de Danças e Cantares do Norte de Portugal, colectividade da Foz do Douro que, em boa hora, não deixou morrer a tradição.

A partir de 1991, com a realização, como atrás citei, a cargo da Junta de Freguesia da Foz do Douro, os cortejos mantiveram  a regularidade anual.

Voltando ainda à exposição havida em 1991, não só única até agora, mas também muito concorrida, nela tive a colaboração do saudoso amigo Sebastião Oliveira Maia, que a meu pedido aceitou auxiliar-me em tão complexo trabalho. Foi muito importante a sua colaboração. Eu sabia, por muitas conversas que tínhamos tido anteriormente, do seu conhecimento sobre a tradição dos cortejos.

Uma das imagens que aqui deixo, já em tempos publicada na minha página do Facebook "A Nossa Foz do Douro" e que me foi oferecida por Oliveira Maia, de um grupo que em 1948 fazia pequenos desfiles junto à praia, não se podendo considerar isso, na minha opinião, como cortejos da forma como mais tarde vieram a acontecer. Ele é um dos fotografados, ainda que não envergasse qualquer vestuário alusivo, como estão praticamente todos os outros. A razão, segundo me explicou, foi que, nessa festividade, era um dos organizadores. Está assinalado na imagem.


Foto de 1948 onde se vê, assinalado por um círculo, Sebastião Oliveira Maia
Pela foto, que aqui também publico, atribuída ao ano de 1941, verifica-se que pouca gente posava para a foto. Seriam poucos os que se envolviam nessa "brincadeira" de S. Bartolomeu? De notar que só participavam homens, mesmo que alguns aparecessem travestidos de mulheres, pelo que se pode ver. Esta regra manteve-se até 1963.


Foto de 1941
O primeiro cortejo que se destaca nesta tradição de S. Bartolomeu, não só pela participação (160 figurantes) como na extensão do percurso, para além da notícia de que foi objeto no Jornal de Notícias, edição de 26 de agosto, foi sem dúvida o de 1963. Este, como atrás escrevi, organizado pelo Joaquim Picarote. Claro que este homem da Foz, a quem se deve, na minha opinião, o grande dinamismo nos cortejos do traje de papel, com soberbas provas dadas em alguns dos melhores cortejos realizados nos anos sessenta, terá participado em manifestações ocorridas em tempos anteriores, ainda que também como figurante.


Um dos quadros do cortejo realizado em 1963 por Joaquim Picarote
Mas a sua devoção ao cortejo de papel, como muitas vezes lhe chamava, foi sem dúvida notada na preparação e organização deste memorável desfile de 1963 e nos seguintes em que foi também organizador, destacando-se o alusivo à história de Portugal, em 1965 e em 1967 o dedicado ao vinho do Porto. 

Há um pequeno filme gravado em oito milímetros, com cerca de três minutos, que publiquei no Youtube, e que aqui deixo também, onde se pode ver (ainda que numa imagem bastante má devido à degradação do tempo) o esmero dos vestuários e o cuidado na apresentação dos figurantes.


Mais coisas há para contar sobre este tema mas ficam para uma próxima "achega” à história dos cortejos do traje de papel na Foz do Douro, incluídos nas festividades a S. Bartolomeu, em agosto.


Agostinho Barbosa Pereira
27 de agosto de 2017 

2 comentários:

  1. Óptimo o trabalho o que o amigo Agostinho Barbosa Pereira, tem vindo a fazer, (tal como o nosso amigo comum António Tavares)para a dinamização do conhecimento da nossa querida Foz, e da sua já longa história. Parabéns, e não desanime nunca, os Fozences( ou Fozeiros ) agradecem. Abraço.

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Imagens de Matosinhos à Foz do Douro

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